domingo, 18 de julho de 2010

poema a quatro mãos

Parto


A noite está tão fria..., fecho as portas e parto
em busca da tua companhia.

Sigo só; além do coração, levo nada,
além dos dedos endurecidos, as mãos geladas.

Sigo em frente, coração diz que valerá a pena
 juntar nossas mãos num poema.

Ah, o abismo que busquei a vida inteira...
Agora, caminho à beira.

Na beira do abismo as palavras dão em cachos
como uvas saborosas, ora falantes, ora silenciosas;

Nessa ponta de abismo a voz de veludo põe lírios
em minha nuca, abala minhas estruturas;

Essa voz que eu conheço, andarilha e macia,
planta em mim versos ébrios de poesia.

A noite se veste de afeto e paixão,
o poeta contempla a estrela polar refletida no chão.





Carmen Regina

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Os termos...


Instalação de Antonio Carlos Machado, Ouro no Prêmio João Turim





Não se engane com meus termos.
Não são empíricos, não são palpáveis,
não são deste mundo,
desenrolam-se em universos paralelos,
surdos aos que só desejam entender.

Eu pego o fio no novelo dos sonhos
e, nem bem o sol abre os olhos,
já saio bordando os instantes.

À noite, com ou sem luar,
coloco os termos pra sonhar
e eles despertam, saboreáveis,
feito poemas.

Carmen Regina



***

quinta-feira, 17 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

um brinco de lua




O brinco solitário da lua brilha
na orelha esquerda da noite.
O piercing de estrela é sua única companhia;
por fora, minúsculo cristal radiante,
adorno e complemento,
por dentro cintila mais que milhões de sóis.


É sua estrela polar, seu sol microscópico,
tão distante ao olhar telescópico,
e a um só tempo tão próxima do luar.
Cabem inteiros no zoom do poeta. 



O colar de versos que guardei
pra usar quando chegasse esse dia,
essa hora macia e terna,  
as flores noturnas perfumando-me 
as ninfas despindo-me
e instilando desejos em minhas veias 
com a seringa da poesia,
onde  estará?


Carmen

quarta-feira, 9 de junho de 2010

* Minhas palavras




Deito para ti minhas palavras                                         
encharcadas de mim.

Rezo para que o teu silêncio
se deite sobre elas,
as sugue, seque e absorva,

Até que delas não reste mais nada,
nenhuma gota d`água,
até que se tornem leves e breves,

Pura essência,
a mesma que move os céus,
a terra, o ser amado,

E, assim, sutis, cristalinas e amorosas
renasçam na boca do poeta que eu sou
e vivam para sempre do teu lado.


*Carmen Regina
by Smírama*



quarta-feira, 7 de abril de 2010

catando estrelas





Passei a madrugada,
vaga lumes nos olhos, lua vazia no céu,
catando estrelas caídas em teu portão;
nos ombros, o cesto da solidão,

Estou aqui, agora,
com o buquê de flores despetaladas,
caixinha de estrelas jóia,
o coração na mão.

Queria ser uma dessas florzinhas,
beijinhos, plantadas em teu caminho.
Mas meu desejo maior é ser
a rosa rubra em teu peito.


Carmen Regina Dias

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Manoel da Rosalinda, poema à contemplação do rio


O rio espalha-se até à eternidade onde desagua,
rompendo o caminho, esculpindo o leito,
arrastando sedimentos de memórias desde a nascente
como alimento, e vida,
e de verde (re)veste a paisagem
e de azul é espelho do céu,
e rio de contentamento
cada vez que o colho à mão
e me refresco
numa quente tarde de verão.

Sinto a foz,
cheira-me a Outono,
mas contemplo-o
com olhos de início
acreditando na corrente
de sua configuração,
para afogar as palavras
de todos os silêncios.

joão m. jacinto

imagem por Gilad - site Deviantart

de noites e dias, momentos...


O RIO RI, AS FLORES ADORAM

Porque ontem fui dormir com meus anjos
e hoje acordei no colo de Kafka,
ao menos por hoje,
não se haverá de mirar
os olhos opacos da impaciência.
E o dia fluirá sem sonolência,
como as águas de um rio
a caminho do mar,
brincando de esconde-esconde com peixes,
que passam, em cardumes,
fazendo-lhe cócegas na barriga;
os peixes saltam, o rio ri,
as águas pulam nas pedras,
as margens ficam excitadas.
O rio é contagiante,
gosta mesmo é de brincar,
brincaria com as borboletas
se elas soubessem nadar mas,
elas ainda não aprenderam,
se precisaria ensinar primeiro às flores.
Mas elas não desgrudam do chão,
a menos que eu as colha com as mãos.
Não.
Hoje não colherei flores,
Hoje colocarei um altar ao pé de cada uma delas.
Vou passar o dia assim,
de altar em altar,
a Te adorar
dentro de mim.

Smírama
by Carmen Regina

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O calor das tuas mãos






Por meus olhos


Um único lance do teu olhar
e meus olhos ficaram colados em tuas pupilas
úmidas, amorosas e febris.



Vi quando a faísca saltou pelas janelas
e a atravessou meu peito como um raio
em noite de tempestade.



Chove granizo.
Uma faísca do teu olhar derreteu meu coração.
De pedra pura.



Sou rocha líquida, teu olhar vai me tornar
em riacho de amor.
Súbita alegria me invade...



Por meus olhos, estou feliz,
- que dirá meu coração?...
Ah, o toque macio da tua mão...um só...



Carmen Regina

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Beija flor



O PRIMEIRO BEIJA FLOR


Uma só gota do Teu perfume e, por meus olhos se pôde ver
o primeiro beija flor no quintal.
Veio colocar seu delicado bico na primavera rosa choque,
en ton tecer as flores com sua dança, dar o ar de sua graça,
veio avisar:
- cheguei para vos beijar.


Há dias rondava,
virava e mexia se ouvia o seu cantar,
pri pri pri pri pri ...mas não se o via.
Agora que os astros se puseram em conjunção, sol e lua na
morando na casa da lunação, eis que ele aparece
súbito e furta cor.
Beija flor tem algo a dizer, ao que parece,
- cheguei para ficar.


As flores, por meus olhos, estão felizes,
que dirá meu coração!
Ah!... um único lance do Teu olhar...


Carmen Regina