terça-feira, 13 de maio de 2008

O rio não pode morrer ainda...



E porque o rio não pode morrer
sem ver o mar
fez-se acordo com o vento,
e as tempestades,
fez-se acordo com rios maiores,
com afluentes...
Vieram pagés,
vieram índios de toda parte
para dançar a dança da chuva...
Agora chove.
Chove sem parar...
E porque o rio quer chegar
cheio de charme
Fez-se acordo as árvores,
ipês, flamboyant, sibipirunas...
cravos, beijinhos, flores multicores,
vegetação miúda,
fez-se acordo com os passarinhos.
E quando a chuva passar
o rio vai estar bem longe,
bem perto do infinito,
quase chegando no mar.
E por todo o caminho, primavera
ladeando as margens,
E quando o rio chegar no mar...
quantos buquês!
Para te entregar.


...Carmen Regina Dias

Poesia do meu amado: RUMI





Na verdade, somos uma só alma,

tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos
tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu,
nem eu, nem tu.


"R u m i", tesouro de poeta na alma...

Sonhando te encontrar um dia...


E de sonho em sonho
O navio foi aproximando
O longe, cada vez mais perto

E de suspiro em suspiro

Fomos estreitando

Laços de espuma em mar aberto

Ondas magnéticas circundando.

E de onda em onda

De marola em marola

Praias cheias de nós

Dunas e dunas costa a fora

Ternura ancorada no porto

Nunca mais foi embora.

De leste a oeste

Doçuras, ternuras, mel

Azul esmeralda, paisagem

No mar no ar e no céu.

Maresia ...
Perfume de sereia seduzindo verso
Maremoto e calmaria

Tu, sempre tu

Pérola e concha

Jóia no peito da poesia.


...Carmen Regina Dias

Diamante...


A Poesia, se vem a ti,
se a tens nas mãos,
é natural que a lapides...
É uma jóia...
Aparar aparar aparar,





infinitamente,
até a gema brilhar ...
Até o Poeta sentir-se
lapidado...
Até a próxima inspiração,
Próxima poesia,
próxima pedra preciosa
oculta, escondida

esperando a lapidação.


Carmen Regina Dias



...

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Joaninha...


Um raio de sol impermanente
rasga o momento,
ele se distrai e nem percebe 
a joaninha,
esperando, quietinha...

Não demora nada ele chega
pousa os longos braços na janela
_ "que calor abrasador"... pensa ela...

Olha, olha, mira bem e
ploft!
está de novo em seus cabelos,
"_que delícia", pensa ela,
"tomara que ele nunca mais saia daqui,
tomara que durma na janela."

E vai descendo pelo cabelinho
tão sedoso, feito ninho,
caracol a caracol,
que lindos caracoizinhos...

Pensativo, sonhador, 
ele nem se toca da presença dela,
e continua na janela.

E ela vai descendo, descendo,
pula do cabelo pro pescoço
e se imagina - que pira!
uma vampira!

Bem ali na artéria pulsante
tum! tum!  tum! 
África, tambores, deserto, vudu
niagara transbordante.

Sobe desce caracol pescoço
mais pra baixo,
não, nos pelos do peito não,
vai sentir cócegas,
vai notá-la, e quem sabe,
esmagá-la,

ou, talvez, pousá-la em sua mão
perto do coração.

Sobe um pouco,
beijinho aqui, beijinho ali,
Ah, se as joaninhas tivessem lingua
beijo de lingua é bom demais,
tesão,

mas ele se afasta,
vai embora
e a joaninha voa...
realizada, feliz,
na boa.


Carmen Regina Dias

Lá vem ela...











Lá vem ela

Braços dados com a alvorada

Lá longe, no começo da estrada

Onde o mar não alcança

E a madrugada se veste das pétalas douradas

Que as ondas sonham entregar ao luar,

E que de tão perfeito o sonhar, elas vêm

E se estendem, infinitas, sobre as areias

Sobre a relva, o sereno que cai invisível

Colando brilhos de estrelas no chão do amanhecer...

Lá vem a palavra com seu vestido branco,

Circundada de flores

Que ninguém nunca viu assim

Tão fluorescentes e mornas

Vem, poesia da alma,

Vem pra mim,

Vem tranqüila, passo a passo

Atravessa o vale do desabrochar

E vem, vem meiga, vem mansa

Vem lânguida

Por fora, neve, por dentro, lava

Que quando tu vens, desfaleço

No rastro desse perfume embriagador

Que nenhuma madrugada jamais

Ousou ou teve a honra de inspirar

Vem, e me beija e me possui

Para todo o sempre

Amém.


Carmen Regina Dias




O trem...


Um dia, me lembro bem,
era à tardinha,
eu estava sentada embaixo
de um pé de jaca,
na chácara da minha vó,
sozinha, na boa,
vendo o trem passar...

piuí, piuí, piuí...chic chac chic chac...

Ao redor,
Vesúvios de fumaça
que ele lançava no ar
faceiro, feliz,
sem dó!
Eu fechava os olhos,
o paraíso se descortinava
e eu entrava.

Tudo de bom tinha lá,
na chácara da minha vó,
castelos, reis, rainhas,
princesas, tesouros,
chocolates quentes,
montanhas impermanentes,
riachos, cascatas,
tapetes voadores, camelos,
mágicos horizontes...

Viver era passar dias inteiros
na terra do sonhar,
a chácara da vovó.
Eita vidão!
nenhum trololó,
nenhum chato de plantão...


Carmen Regina Dias

Eu, a relva ...



















Não fosse o calor
vulcânico, abrasador
sobre meu corpo estirado,
quase morto, largado,
talvez nem percebesse
algo que se arrasta sobre mim
vagarosamente, em slow...

Ouço batidas compassadas,
surdas, graves, comprimidas,
- um baixo, um sax, um violão,
batidas de coração?
Apuro: nenhuma respiração.

É a hora selvagem
silêncio ensurdecedor,
sóis e luas,
estrelas e buracos negros
em nuvens de éter invadem a mata,
a floresta enlouquece
e esquece.

Os instintos saciados, nem me notam,
deslizam seus corpos quentes sobre mim,
se espojam, adormecem...

Amanha é outro dia,
agora, é sonhar, ser o não-ser,
viajar infinitas possibilidades:
leopardos viram leões,
elefantes viram anões,
cogumelo vira xamã.
Bons sonhos,
até amanhã.

Carmen Regina Dias

Meu animal


Foi em sonhos que ele
Se insinuou em meu caminho,
Primeiro,como um gatinho
Engolindo as cobras que tirava
Debaixo da terra, sozinho.
Tempos depois, vieram vários deles,
Pequenos tigrinhos,
Não me causavam medo,
Só um certo desassossego.
Na sequência veio ele mesmo,
Poderoso, viril...
Caminhava em minha direção,
Compasso do coração,
Silenciosamente...
Meus olhos não viam seus dentes.
Vira e mexe, ele aparece, e eu sei,
É o mestre, meu protetor,
Na terra do sonhar
Sou aluna e amiga do Rei.

Carmen Regina Dias

Fadas do amanhecer









Aqui é sempre assim,
as madrugadas rendeiras tecem o amanhecer
e a alvorada borda a

 exuberância indescritível dos jardins.

Por ora, nada a fazer,
espera pra ver como é lindo o alvorecer...
(as fadas brincam nas gotas mágicas e cristalinas,
nanoniágaras preciosas, beijos do orvalho
nas folhas úmidas das manhãs.)

Pouco a pouco chegam seus amores,
borboletas, bem-te-vis, beija-flores...

Não abra os olhos ainda,
sinta o aroma de fadas  perfumando
o sono da madrugada
com seu encanto inquebrantável,
inesquecível, inefável.

Carmen Regina Dias